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Quase 800 candidatos mudam cor ou raça no TSE para 2026

ResumoO Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registra 786 candidatos para as eleições de 2026 com cor ou raça distinta da declarada em 2022. A mudança de branca para parda é a mais frequente entre os casos. Os dados do TSE indicam inconsistências nas autodeclarações, com especialistas apontando fatores como contexto político e revisão identitária.

786 candidatos para as eleições de 2026 têm cor ou raça diferente da registrada em 2022. Mudanças de branca para parda lideram. Entenda os dados do TSE e as explicações de especialistas.

Edmar Lisboa
Edmar Lisboa Editor regional · 13 de agosto de 2026 · 8 min de leitura
Quase 800 candidatos mudam cor ou raça no TSE para 2026

Quase 800 candidatos mudam no TSE cor ou raça declarada para 2026

786 candidatos registrados para as eleições de 2026 têm informação de cor ou raça diferente da que constava nos dados da Justiça Eleitoral em 2022. O número representa 4,5% das 17.413 candidaturas registradas até o momento, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) analisados pelo g1 e extraídos às 19h30 de quarta-feira (12).

Os dados ainda podem mudar. Partidos, federações e coligações têm até as 19h de 15 de agosto, este sábado, para apresentar os pedidos de registro.

Por que tantos candidatos mudaram a autodeclaração de cor ou raça?

A mudança mais frequente nestas eleições foi de branca para parda, identificada em 308 candidaturas. O caminho inverso, de parda para branca, aparece em 262 casos. Juntas, as duas alterações somam 570 registros, ou 72,5% de todas as diferenças encontradas.

Em 2022, levantamento do g1 identificou 2.510 candidatos que haviam mudado a autodeclaração de cor ou raça, o equivalente a nove em cada cem candidaturas registradas naquele pleito. Na ocasião, 938 mudanças, mais de um terço do total, eram de candidatos que haviam se declarado brancos em 2020 e passaram a se declarar pretos ou pardos em 2022.

O que dizem os especialistas sobre as mudanças

Ana Cláudia Santano, doutora em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidade de Salamanca e coordenadora-geral da Transparência Eleitoral Brasil, explica que uma mudança na autodeclaração, isoladamente, não indica que houve algo errado.

"Quando a gente fala de alteração da autodeclaração, ela, por si só, não supõe nada errado, porque essa alteração pode se dar por muitas razões, dentre elas erro de preenchimento no registro de candidatura. O erro humano acontece. Também pode ser uma tomada de consciência por parte da pessoa; ou alguma decisão motivada por razões pragmáticas, para tentar aquele financiamento específico das pessoas negras", afirma.

A socióloga Rios aponta duas hipóteses para explicar as divergências. A primeira envolve a forma como os registros são preenchidos e a mediação das estruturas partidárias.

"Apesar de ser autodeclaração, algumas pessoas que têm estudado mais a fundo a dinâmica de inscrição no interior dos partidos apontam que, às vezes, não é o próprio candidato que faz a classificação. Às vezes existe uma dinâmica interna partidária, e isso acaba sendo uma heteroclassificação, no sentido de que não perguntam ao candidato e simplesmente colocam. Às vezes, a burocracia partidária faz a mediação e, por isso, pode gerar essas inconsistências: uma hora está de um jeito, outra hora está de outro."

A segunda hipótese é a de que a mudança seja feita de forma intencional para tentar obter recursos destinados às candidaturas negras. A socióloga ressalta, porém, que os dados não permitem determinar se houve essa intenção.

O g1 questionou o TSE sobre a possibilidade de as diferenças nas autodeclarações decorrerem de erros de cadastro e sobre os procedimentos adotados pelo tribunal nesses casos, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

Como ficaram as autodeclarações em 2026

Entre os 786 candidatos analisados, 419, ou 53,3%, se declararam pardos em 2026. Outros 275 se declararam brancos, 76 pretos, 9 indígenas e 7 amarelos.

Considerando pretos e pardos como pessoas negras, 313 candidatos passaram de uma autodeclaração branca ou amarela em 2022 para preta ou parda em 2026. No sentido inverso, 269 passaram de preta ou parda para branca ou amarela.

Outros 182 mudaram dentro das categorias consideradas negras: 108 passaram de preta para parda e 73, de parda para preta.

Rios aponta que essas oscilações já existiam antes das políticas raciais e acompanham transformações no jeito como os brasileiros percebem a própria cor ou raça.

"Segundo demógrafos e sociólogos, as configurações políticas e culturais do país influenciam a percepção dos indivíduos. No início do século, com as ideologias de democracia racial, de embranquecimento e a valorização de um perfil mais branco, a população tendia a 'se clarear': o preto se dizia pardo e o pardo se dizia branco", explica.

"No século XXI, quando você tem políticas com marcações raciais, se você se autodeclara preto, pardo ou indígena, isso significa que pode concorrer a uma reserva de vagas. Obviamente, isso também interfere, mas não é só uma interferência oportunista. Já havia uma tendência de oscilação em favor do crescimento tanto da população preta quanto da parda", diz Rios.

Mudanças detalhadas por cor de origem

Entre os candidatos que se declararam amarelos em 2022, dez passaram a se declarar brancos e dois, pardos. Dos que haviam se declarado brancos, 308 passaram para pardos, três para amarelos, três para pretos e dois para indígenas. Uma candidatura que havia sido registrada como indígena em 2022 passou a se declarar parda.

Entre os que se declararam pardos em 2022, 262 passaram para brancos, 73 para pretos, sete para indígenas e quatro para amarelos. Dos candidatos que haviam se declarado pretos, 108 passaram para pardos e três para brancos.

Republicanos e PL lideram em números absolutos

O Republicanos aparece com o maior número absoluto de candidatos que apresentaram diferença na informação de cor ou raça, com 75 registros. Entre eles, 36 passaram de branca para parda e 21, de parda para branca.

Em seguida estão o PL, com 70 mudanças, e o MDB, com 62. No PL, a alteração mais frequente foi de parda para branca, com 31 casos, seguida pela mudança de branca para parda, com 30. No MDB, também predominou a mudança de parda para branca, identificada em 26 candidaturas.

A contagem considera o partido pelo qual a pessoa concorre em 2026. Como os dados não relacionam as mudanças ao total de candidatos registrados por cada legenda, os números não indicam quais partidos têm, proporcionalmente, mais alterações.

O que dizem os partidos

Em nota ao g1, o PSD afirmou que observa a legislação e as normas da Justiça Eleitoral.

"Cabe a cada esfera partidária, na respectiva circunscrição do pleito, escolher e registrar as suas candidaturas. A informação relativa à raça/cor é prestada à Justiça Eleitoral mediante autodeclaração da própria candidata ou do próprio candidato."

O PT informou que adotou neste ano uma banca de heteroidentificação para candidatos que se autodeclararam pretos ou pardos e acessaram a plataforma dentro do prazo estabelecido pelo partido. "Não foi realizado um balanço sobre as autodeclarações dos processos eleitorais anteriores. Os motivos das mudanças podem ter origens variadas."

O PSOL informou que contratou, pela primeira vez, uma banca externa de heteroidentificação, organizada pelo Instituto Quilombação e formada por especialistas ligados a universidades e instituições públicas. Segundo a legenda, os diretórios regionais também estão revisando possíveis erros de digitação e outras informações nos registros das candidaturas.

"O colegiado terá a função de analisar os elementos fenotípicos de candidatas e candidatos que declararem cor preta ou parda no registro de candidatura. As regras internas estabelecem que candidaturas negras recebam, por exemplo, um valor proporcionalmente superior (até 15% a mais) em relação a candidaturas brancas na mesma faixa de prioridade."

O Missão ressaltou que a mudança não dá acesso aos recursos reservados às candidaturas negras e declarou ser contrário ao atual modelo de cotas raciais.

"No Missão, quem faz a autodeclaração é o próprio candidato, seguindo as regras da Justiça Eleitoral. O que a gente não admite é qualquer alteração que tenha como objetivo obter vantagem indevida na distribuição dos recursos destinados às cotas raciais. Neste caso, porém, a mudança foi de parda para branca. Ou seja, não houve qualquer benefício com essa alteração, já que candidatos brancos não recebem os recursos destinados às cotas raciais. O Partido Missão é contrário ao atual modelo de cotas raciais e de distribuição diferenciada de recursos eleitorais. Embora cumpra integralmente a legislação vigente, o partido defende que todos os candidatos sejam tratados de forma igual perante a lei, sem distinção de raça ou cor."

Os demais partidos foram procurados pelo g1, mas não se manifestaram até a publicação.

Perguntas Frequentes

Até quando os partidos podem corrigir os registros de candidatura?

Partidos, federações e coligações têm até as 19h de 15 de agosto, este sábado, para apresentar os pedidos de registro ao TSE. Os dados podem mudar até lá.

O que explica a mudança de cor ou raça entre 2022 e 2026?

Especialistas apontam duas hipóteses principais: erro de preenchimento no registro ou mediação da burocracia partidária, que às vezes classifica o candidato sem consultá-lo. Também pode haver mudança intencional para tentar acessar recursos destinados a candidaturas negras, mas os dados não permitem confirmar essa intenção.

Quais partidos têm mais mudanças na autodeclaração?

Em números absolutos, o Republicanos lidera com 75 registros, seguido por PL (70) e MDB (62). A contagem considera o partido pelo qual a pessoa concorre em 2026 e não indica proporção por legenda.

Mudar a autodeclaração dá acesso automático a recursos de cotas?

Não. A mudança, por si só, não garante acesso aos recursos reservados às candidaturas negras. Partidos como PT e PSOL adotaram bancas de heteroidentificação para verificar a autodeclaração de candidatos pretos ou pardos.

As oscilações na autodeclaração são um fenômeno novo?

Não. Segundo a socióloga Rios, essas oscilações já existiam antes das políticas raciais e acompanham transformações no jeito como os brasileiros percebem a própria cor ou raça, influenciadas por configurações políticas e culturais do país.

entenda como funciona a autodeclaração de cor ou raça nas eleições veja o que diz a legislação sobre cotas raciais em candidaturas

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