Católicos ultratradicionalistas em cisma com o Vaticano: quem são e onde estão no Brasil
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), grupo católico ultratradicionalista em cisma com o Vaticano, mantém comunidades em 11 estados brasileiros e no Distrito Federal. Após a excomunhão de cinco sacerdotes e o reconhecimento de uma comunidade como cismática, o movimento vol
Quem são os católicos ultratradicionalistas em cisma com o Vaticano
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) é um grupo católico ultratradicionalista que rejeita as reformas do Concílio Vaticano II (1962-1965). Presente em 37 países, com 637 sacerdotes e cerca de 600 mil fiéis, mantém comunidades em 11 estados brasileiros e no Distrito Federal. O movimento voltou ao centro do debate após o Vaticano excomungar cinco sacerdotes e reconhecer como cismática uma de suas comunidades no Brasil.
Os católicos ultratradicionalistas em cisma com o Vaticano que estão em 11 estados do Brasil seguem o rito tridentino, abandonado como forma ordinária de celebração após o Concílio Vaticano II. Na missa, o padre permanece voltado para o altar, de costas para os fiéis, e celebra em latim. Homens usam camisa social; mulheres vestem saias ou vestidos abaixo dos joelhos.
Onde estão as comunidades da FSSPX no Brasil
A Fraternidade mantém capelas e missões em 11 estados brasileiros e no Distrito Federal. Uma delas é a Capela Nossa Senhora da Conceição, em Pendotiba, Niterói (RJ), que aos domingos reúne cerca de 800 fiéis, segundo a comunidade. Muitos chegam mais de uma hora antes da celebração para conseguir lugar. Situação semelhante é relatada em unidades no Ceará e em Santa Maria (RS), onde parte do público acompanha a missa do lado de fora quando a igreja lota.
Em Brasília, a Capela Santo Atanásio, em Ceilândia (DF), foi diretamente afetada pela decisão do Vaticano. A Arquidiocese de Brasília informou que o padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa está fora da comunhão da Igreja e orientou os fiéis a não participarem das celebrações do local.
Por que a FSSPX entrou em cisma com o Vaticano
A origem do conflito remonta a 1970, quando a Fraternidade foi fundada pelo arcebispo francês Dom Marcel Lefebvre em reação às mudanças promovidas pelo Concílio Vaticano II. Entre as principais reformas estavam a celebração das missas nos idiomas locais, maior participação dos fiéis e aproximação da sociedade contemporânea.
O principal desentendimento da FSSPX com o Vaticano diz respeito ao Concílio Vaticano II. A Fraternidade argumenta que isso enfraqueceu a tradição católica, enquanto o Vaticano sustenta que as reformas são legítimas e um marco importante de renovação da Igreja.
A excomunhão de 2025 e seus reflexos no Brasil
Em 2 de julho, a Santa Sé confirmou a excomunhão de quatro bispos ligados à FSSPX, um dia após terem sido consagrados na Suíça sem autorização do Papa Leão XIV. Para Roma, a decisão configura ato de desobediência.
No Brasil, a medida teve reflexo direto na Capela Santo Atanásio, em Ceilândia (DF). A Arquidiocese de Brasília informou que o padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa está fora da comunhão da Igreja e orientou os fiéis a não participarem das celebrações do local, pois seus atos ministeriais, como matrimônios, são considerados ilícitos e inválidos.
Após a divulgação da decisão, Françoá Costa publicou nas redes um vídeo intitulado "Resposta aos inimigos", no qual afirma que continuará celebrando missas e classifica a punição como "inválida". A posição acompanha a da própria Fraternidade, que apresentou recurso ao Vaticano pedindo a revisão da excomunhão.
Como é a missa e o dia a dia nas comunidades
Na Capela Nossa Senhora da Conceição, em Pendotiba, a missa acompanhada pelo GLOBO, voltada ao sacerdócio, reuniu 16 pessoas. Aos domingos, o cenário muda. A comunidade também mantém escola própria, onde 150 alunos aprendem latim desde cedo.
Alberto Fernandes, de 47 anos, conheceu a Fraternidade após assistir a um documentário sobre Dom Marcel Lefebvre. Convertido ao catolicismo após ter sido criado em família protestante, Fernandes deixou o emprego para trabalhar na capela. Segundo ele, muitas famílias se mudaram para viver perto da capela.
"Aos domingos fica lotado. Tem gente de São Paulo, Goiás, Pernambuco, Ceará e outras partes do Rio. Muitos assistem à missa do lado de fora", afirmou.
O que dizem os especialistas sobre o movimento
Para o doutor em Teologia Luciano Santos, as redes sociais facilitaram o acesso a conteúdos de influenciadores e comunidades tradicionalistas, aproximando jovens e famílias dessas propostas. "Esses grupos ganharam visibilidade pela busca de maior segurança doutrinária e valorização da identidade católica", disse.
O historiador Lucca Hipólito explica que o Concílio não criou novos dogmas, mas promoveu mudanças profundas na liturgia, fortaleceu a participação dos leigos e incentivou o diálogo ecumênico.
Para o mestre em História Sérgio Roberto Scheffer, a ruptura está na relação com a autoridade papal. "Um grupo tradicionalista em comunhão com Roma reconhece plenamente a autoridade do Papa e atua com autorização da Igreja. Já um grupo cismático rompe essa comunhão ou atua sem o reconhecimento oficial da Santa Sé."
A posição da Fraternidade sobre o cisma
Dom Lourenço Fleichman, padre da FSSPX em Niterói, rejeita a classificação de cisma e afirma que a Fraternidade continua reconhecendo a autoridade do Papa. Segundo ele, o grupo enviou dois pedidos ao Vaticano solicitando autorização para as nomeações, mas, sem resposta, decidiu realizar as consagrações.
"Celebramos voltados para o Oriente, como sempre foi feito. O sacerdote conduz esse sacrifício em nome de Cristo", disse sobre a posição do padre diante do altar.
Em seu site, a Fraternidade afirma manter fidelidade à autoridade do Papa, mas rejeita as reformas da Igreja por considerá-las um afastamento da tradição.
Perguntas Frequentes
Quantos fiéis têm a FSSPX no Brasil?
A Arquidiocese de Brasília não tem levantamento sobre o número de fiéis no país. Comunidades consultadas pelo GLOBO relatam aumento da procura pelas celebrações.
O que é o rito tridentino?
É a forma de celebrar a missa em latim, com o padre voltado para o altar, que foi substituída como forma ordinária após o Concílio Vaticano II.
A FSSPX reconhece o Papa?
A Fraternidade afirma manter fidelidade à autoridade do Papa, mas rejeita as reformas do Concílio Vaticano II.
Quais estados brasileiros têm comunidades da FSSPX?
O movimento está presente em 11 estados brasileiros e no Distrito Federal, incluindo Rio de Janeiro, Distrito Federal, Rio Grande do Sul e Ceará.
O que foi o Concílio Vaticano II?
Reforma da Igreja Católica realizada entre 1962 e 1965 que promoveu mudanças na liturgia, maior participação dos fiéis e diálogo ecumênico.
Por que a FSSPX foi excomungada?
Por consagrar bispos sem autorização papal, o que o Vaticano considera ato de desobediência e cisma.